Friday, August 19, 2016

DISCURSO DIRECTO, por Paulo Henriques dos Marques

Porque muitos se não
lembram de ter passado a
escoteiros adultos?
A óbvia a utilidade do Caminheirismo para captação de recursos adultos, é determinante para a sustentabilidade do Movimento jovem, em geral, e para a sustentabilidade das suas associações, em particular.
No entanto, essa utilidade não pode ser confundida com a finalidade do Caminheirismo, que é muito mais impactante na sociedade que apenas a manutenção do próprio Movimento.
O Caminheirismo é a fase de acabamento da educação propiciada pelo Movimento jovem. É quando se preten-de concretizar a formação de um jovem adulto, capaz de cuidar de si, de escolher um projeto de vida adulta e dar passos concretos nesse caminho, de se tornar um cidadão útil e construtivo para a comunidade - ou algo deste género, explicado por outras palavras específicas de cada associação. Como é sabido, uma finalidade educativa desta grandeza não se atinge apenas por feliz acaso. Para a conseguir, há todo um caminho a percorrer na autonomização, na reflexão, na capacitação e na superação, entre outras competências desenvolvidas no jovem durante o Caminherismo.
Conforme cada indivíduo e o programa educativo da respetiva associação, este desenvolvimento deve operar-se em mais ou menos anos – mas sempre ao longo de alguns anos. Esse percurso formativo está completo quando o(a) caminheiro(a) está pronto(a) para partir do Clã. Esta partida pode assumir diferentes contornos. Independentemente deles, pretende-se que seja o momento em que o(a) caminheiro(a) assuma perante os seus pares e perante um(a) educador(a) escotista, um projeto de vida adulta, em que já começou a caminhar, e após a renovação do seu Compromisso de Honra, que leva para a vida.
Uma vez assumido este passo gigantesco, está concretizada a finalidade nuclear do Movimento jovem. De cada vez que tal é conseguido, o Movimento deixa de ter um educando e a comunidade passa a contar com um escoteiro adulto.
Se fosse possível multiplicar este feito por todos os que passam pelo Movimento jovem, o impacto benéfico do Escotismo na Sociedade seria muito maior do que real-mente é – porque todos se lembrariam que passaram a ser escoteiros adultos.
Mas a realidade é outra. Como constatam educadores escotistas de qualquer época, poucos escoteiros chegam a iniciar a fase do Caminheirismo. Ainda mais raramente, os que passam a caminheiro(a) chega a assumir uma partida do clã como um projeto de vida já iniciado e conscientes do Compromisso de Honra assumi-do. Em vez disso, o mais vulgar é desligar-se progressivamente do Movimento sem saber bem como o fazer, nem para passar a ser o quê... Com este abandono descomprometido antes da meta, é natural que muitos
adultos se recordem apenas de terem andado nos Escoteiros, em vez de se recordarem que passaram a ser escoteiros adultos. Esta diferença constitui um “por-maior” que limita muito a extensão do impacto do nosso Movimento na sociedade.
Portanto, quando se põe em hipótese não investir no Caminheirismo, há que ponderar o risco de não completar adequadamente a formação escotista de um jovem adulto.
Em síntese, para que a formação escotista fique para toda a vida, não basta ter sido escoteiro(a) numa fase da vida muito enquadrada pelos pares e pelo educador escotista, em que se beneficiava de muito apoio e em que os desafios eram pouco díspares dos seus recursos pessoais.
Se um(a) escoteiro(a) não desenvolver as competências indispensáveis para se assumir responsável pelo seu próprio desenvolvimento nem para escolher um caminho para a vida, poderá sentir-se inapto(a) para empreender os seus interesses, sentir-se comparativamente inferior aos demais, desmotivar e abandonar o Movimento sem completar a sua finalidade. 

Arrisco-me mesmo a afirmar que será também por causa de abandonar o Movimento antes da meta, que mui-tos adultos se recordam apenas de terem andado nos Escoteiros, em vez de se recordarem que passaram a ser escoteiros adultos responsáveis.

Paulo Henriques dos Marques
Insígnia de Madeira de Clã – Gilwell Park –1989)

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